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Curativos em Enfermagem: Tipos, Materiais, Técnica Estéril e Quando Trocar

curativo de enfermagem — enfermeira realizando troca de curativo estéril em ferida cirúrgica com campo estéril, pinças e gazes em ambiente hospitalar

Curativos em Enfermagem: Tipos, Materiais, Técnica Estéril e Quando Trocar

O curativo de enfermagem é um dos procedimentos mais realizados em toda a prática assistencial — presente nas unidades de internação, UTIs, pronto-socorros, unidades básicas de saúde e até no domicílio. Mais do que cobrir uma ferida, um curativo bem executado cria o ambiente ideal para a cicatrização, previne infecções e reduz o tempo de tratamento. Um curativo malfeito, por outro lado, pode transformar uma ferida simples em uma complicação grave.

Saber como fazer curativo estéril passo a passo, conhecer os tipos de curativo disponíveis e dominar a escolha da cobertura correta para cada tipo de ferida são competências essenciais de técnicos de enfermagem e enfermeiros. As coberturas modernas evoluíram muito nas últimas décadas — hoje vão muito além da gaze e da fita adesiva, incluindo hidrocoloides, alginatos, espumas e coberturas com prata que atuam ativamente no processo de cicatrização.

Neste guia completo, você encontrará a classificação dos tipos de curativo, os materiais e coberturas mais utilizados, a técnica estéril passo a passo, os critérios para troca, os cuidados de enfermagem e as principais complicações. Conteúdo fundamentado nas diretrizes do Ministério da Saúde, COFEN, SOBEST (Sociedade Brasileira de Estomaterapia) e evidências científicas atualizadas.

O que é Curativo de Enfermagem?

O curativo de enfermagem é o conjunto de procedimentos realizados sobre uma ferida (lesão tecidual) com o objetivo de proteger, limpar, umidificar e promover condições ideais para a cicatrização. Inclui desde a limpeza da ferida com solução fisiológica (SF 0,9%) até a aplicação de coberturas especializadas — chamadas de coberturas de feridas ou curativos primários — e, sobre elas, um elemento de fixação (cobertura secundária).

Segundo a SOBEST (2022), o curativo ideal deve manter o leito da ferida úmido (sem encharcar), ser atóxico, não aderente ao tecido de granulação, permeável a gases, com controle de odor e exsudato, e permitir trocas sem trauma. A escolha da cobertura deve sempre considerar a fase da cicatrização, a quantidade de exsudato e o objetivo terapêutico.

Do ponto de vista legal, a Resolução COFEN nº 0567/2018 estabelece que a prescrição de coberturas especializadas e a avaliação de feridas complexas são competências privativas do enfermeiro. O técnico de enfermagem realiza a troca de curativos simples sob supervisão, conforme prescrição de enfermagem.

Tipos de Curativo de Enfermagem e Coberturas Disponíveis

A classificação dos curativos pode seguir diferentes critérios: pela técnica (estéril ou limpo), pelo tipo de cobertura ou pelo objetivo terapêutico. Veja os principais:

Classificação pela Técnica

Tipo Definição Quando Usar
Curativo Estéril Técnica asséptica rigorosa com materiais esterilizados e campo estéril. Zero contato manual com a área interna. Feridas cirúrgicas, feridas agudas, pacientes imunossuprimidos, inserção de cateteres
Curativo Limpo Técnica limpa com materiais novos. Luvas de procedimento (não estéril). Sem campo estéril. Feridas crônicas estabilizadas, úlceras venosas, feridas em cicatrização avançada, domicílio
Curativo Oclusivo Veda completamente a ferida, impedindo entrada de ar e microrganismos externos. Feridas com risco alto de contaminação, drenagens de tórax, feridas em locais expostos
Curativo Compressivo Aplica pressão sobre a ferida para controlar sangramento ou reduzir edema. Pós-punção venosa, feridas com sangramento ativo, úlceras venosas de MMII

Principais Coberturas de Feridas — Guia Rápido

Cobertura Mecanismo / Composição Indicação Principal Troca
Gaze simples + SF 0,9% Limpeza mecânica e proteção básica Feridas limpas, pós-op. simples, abrasões Diária ou conforme saturação
Hidrocoloide Gel absorvente que mantém ambiente úmido. Impede troca gasosa. Feridas com exsudato leve a moderado, escara grau I–II, abrasões 3–7 dias
Hidrogel Gel aquoso que hidrata o leito seco e favorece desbridamento autolítico. Feridas secas, necrose seca, escaras ressecadas 1–3 dias
Alginato de cálcio Fibras derivadas de alga marinha que absorvem muito exsudato e formam gel. Feridas com alto exsudato, cavidades, feridas hemorrágicas 1–3 dias ou ao saturar
Espuma / Foam Poliuretano altamente absorvente. Mantém umidade sem macerar. Feridas com exsudato moderado a alto, úlceras por pressão, pé diabético 2–4 dias
Cobertura com prata Prata iônica com ação antimicrobiana local. Feridas infectadas ou com alto risco de infecção, biofilme 2–7 dias conforme fabricante
Filme transparente (PU) Poliuretano transparente semipermeável. Permite visualização sem retirar. Feridas superficiais, fixação de cateter, proteção de pele íntegra 3–7 dias
Carvão ativado Absorve odores e exsudato. Pode conter prata associada. Feridas neoplásicas, feridas com odor intenso, lesões fúngicas 1–3 dias

Como Fazer Curativo Estéril Passo a Passo — Técnica Completa

A técnica do curativo estéril exige organização rigorosa, princípios de assepsia e sequência lógica de etapas. Seguir cada passo corretamente é o que garante a proteção do paciente e a eficácia do procedimento.

Materiais necessários

  • Bandeja ou cuba-rim estéril
  • Gazes estéreis (quantidade conforme tamanho da ferida)
  • Pinças estéreis: 2 anatômicas e 1 dente de rato (ou pinça de Kocher)
  • Solução fisiológica (SF 0,9%) — de preferência em frasco monodose estéril
  • Cobertura prescrita (hidrocoloide, alginato, espuma, etc.)
  • Fita micropore, esparadrapo ou fixador específico da cobertura
  • Luvas estéreis (para curativos em feridas cirúrgicas ou complexas)
  • Luvas de procedimento (para retirada do curativo antigo)
  • Saco de lixo infectante (coletor branco leitoso)
  • Máscara cirúrgica e óculos de proteção (precauções padrão)

Passo a Passo da Técnica Estéril

  1. Realize a higiene das mãos com água e sabão ou álcool 70%. Esta etapa é obrigatória antes e após o procedimento.
  2. Explique o procedimento ao paciente, posicione-o confortavelmente e exponha apenas a área da ferida.
  3. Organize o material sobre superfície limpa. Abra os pacotes estéreis sem contaminar o conteúdo (abrir pela face externa do invólucro).
  4. Calce as luvas de procedimento para retirar o curativo antigo. Remova com cuidado, no sentido do crescimento dos pelos, sem tracionar a ferida.
  5. Avalie a ferida: cor do leito (vermelho=granulação, amarelo=fibrina, preto=necrose), bordas, exsudato (seroso, serossanguinolento, purulento), odor e sinais de infecção.
  6. Calce as luvas estéreis (ou utilize a técnica sem tocar — no-touch technique — com pinças para curativos simples).
  7. Monte o campo estéril: coloque as gazes, a cobertura e os instrumentos na bandeja estéril sem contaminar.
  8. Limpe a ferida com SF 0,9% em movimento centrífugo (do centro para a periferia) com gaze estéril. Use uma gaze por movimento — nunca volte ao centro com a mesma gaze.
  9. Seque suavemente com gaze estéril por toque (dabbing), sem esfregar. Não use algodão diretamente na ferida — as fibras podem contaminar.
  10. Aplique a cobertura primária prescrita (gaze, hidrocoloide, alginato, etc.) sobre o leito da ferida.
  11. Cubra com cobertura secundária (gaze dobrada) se necessário e fixe com micropore ou esparadrapo, sem apertar excessivamente.
  12. Retire as luvas, descarte o material contaminado no lixo infectante e realize a higiene das mãos.
  13. Registre em prontuário: data, hora, aspecto da ferida, cobertura utilizada, quantidade de exsudato, sinais de infecção e data prevista para a próxima troca.
técnica de curativo de enfermagem — mãos enluvadas com pinça anatômica realizando limpeza de ferida cirúrgica com gaze estéril em campo estéril

Cuidados de Enfermagem na Realização do Curativo

Além da técnica correta, alguns cuidados clínicos transversais garantem a qualidade e a segurança do procedimento e favorecem a cicatrização da ferida.

  • Controle da dor: avalie a intensidade da dor antes e após o curativo (Escala Visual Analógica — EVA). Informe ao enfermeiro/médico se o paciente referir dor intensa ou crescente.
  • Temperatura da solução de limpeza: usar SF 0,9% em temperatura ambiente ou levemente aquecida. Soluções frias diminuem a atividade mitótica celular e retardam a cicatrização.
  • Não usar antissépticos rotineiramente no leito da ferida: PVP-I (povidona iodada), água oxigenada e álcool são citotóxicos para tecidos de granulação. Usar apenas sob prescrição específica.
  • Identificar sinais de infecção: calor, rubor, edema, dor, exsudato purulento e odor fétido são sinais de infecção local. Febre e leucocitose indicam infecção sistêmica — comunicar imediatamente.
  • Manter a umidade adequada: feridas ressecadas têm cicatrização mais lenta. A cobertura escolhida deve manter o ambiente úmido sem macerar (amolecer excessivamente) as bordas.
  • Orientar o paciente e família: instruir sobre sinais de alerta, cuidados para não molhar ou retirar a cobertura e a importância de retornar para a troca no prazo correto.
  • Fotografar a ferida: a documentação fotográfica com régua graduada permite avaliar a evolução da cicatrização ao longo do tratamento e integra o prontuário eletrônico.
DICA CLÍNICA — Quando Trocar o Curativo? A frequência de troca varia conforme a cobertura e o estado da ferida. Critérios para troca imediata: • Curativo úmido, sujo ou desprendido das bordas • Exsudato vazando pela cobertura (saturação > 75% da área) • Odor fétido perceptível através da cobertura • Sinais de infecção: hiperemia, calor, edema ou febre • Antes de qualquer procedimento cirúrgico na área Coberturas modernas (hidrocoloide, espuma, alginato) permitem intervalos maiores: 3–7 dias. Trocar com menos frequência que o necessário é tão prejudicial quanto trocar em excesso.

Complicações e Erros Mais Comuns no Curativo de Enfermagem

O conhecimento das complicações mais frequentes permite prevenção ativa e intervenção precoce.

Complicação / Erro Causa / Mecanismo Prevenção / Conduta
Infecção da ferida Quebra da técnica estéril, cobertura inadequada, limpeza insuficiente Rigor na técnica asséptica; limpeza adequada; identificar sinais precoces; comunicar médico
Maceração das bordas Excesso de umidade por cobertura inadequada para o volume de exsudato Trocar de cobertura se saturação > 75%; usar produto barreira nas bordas
Trauma na troca (lesão por adesivo) Retirada brusca da fita ou cobertura aderida ao tecido Umedecer a borda da cobertura antes de retirar; tracionar paralelo à pele
Retardo da cicatrização Uso de antissépticos citotóxicos, ambiente seco, troca excessiva Evitar PVPI e água oxigenada no leito; manter umidade; reduzir frequência de troca
Deiscência da ferida cirúrgica Tensão excessiva, infecção, desnutrição, diabetes descontrolada Observar bordas; não tracionar; comunicar enfermeiro; cobrir com gaze úmida em SF 0,9%
Retenção de corpo estranho Gazes ou fibras de algodão deixadas no interior de cavidades Contar gazes antes e após; usar gaze radiopaca em cavidades; registrar material utilizado
ERROS CRÍTICOS QUE COMPROMETEM A SEGURANÇA DO PACIENTE • Usar água oxigenada ou PVPI (povidona iodada) rotineiramente no leito da ferida — são citotóxicos • Não trocar as luvas entre remover o curativo antigo e aplicar o novo • Usar a mesma gaze para limpar do centro para as bordas e depois voltar ao centro • Realizar curativo estéril em ambiente com correntes de ar intensas (janelas abertas, ventiladores) • Não registrar o procedimento e as características da ferida no prontuário • Trocar o curativo antes do prazo sem indicação clínica — prejudica a granulação • Cobrir ferida infectada com hidrocoloide oclusivo sem desbridamento prévio
cuidados de enfermagem em curativo — enfermeira avaliando cicatrização de ferida e bordas da lesão durante troca de cobertura em paciente internado

Perguntas Frequentes sobre Curativo de Enfermagem

Como fazer curativo estéril passo a passo com os tipos de curativo corretos para cada ferida?

Primeiro avalie a ferida: fase de cicatrização (inflamatória, proliferativa ou remodelação), quantidade de exsudato, presença de infecção e profundidade. Para feridas limpas e superficiais, gaze estéril + SF 0,9% é suficiente. Para feridas com exsudato moderado a alto, use espuma ou alginato. Para feridas ressecadas, use hidrogel. Para feridas infectadas, coberturas com prata. Em qualquer caso: higienize as mãos, use técnica asséptica, limpe com SF de centro para a periferia, aplique a cobertura correta e registre o procedimento.

Técnico de enfermagem pode realizar curativo sozinho?

Sim, para curativos simples (feridas limpas, superficiais, em cicatrização), o técnico de enfermagem pode realizar a troca sob prescrição e supervisão do enfermeiro, conforme a Resolução COFEN nº 0567/2018. A avaliação de feridas complexas, a prescrição de coberturas especializadas e a decisão sobre desbridamento são competências privativas do enfermeiro. Em caso de dúvida sobre o aspecto da ferida, o técnico deve sempre acionar o enfermeiro responsável antes de proceder.

Qual a diferença entre curativo estéril e curativo limpo?

O curativo estéril utiliza materiais esterilizados, campo estéril, pinças e luvas estéreis — eliminando qualquer microrganismo que possa contaminar a ferida. É indicado para feridas agudas, cirúrgicas e pacientes imunossuprimidos. O curativo limpo utiliza materiais novos e limpos (não necessariamente estéreis), luvas de procedimento e técnica limpa — é adequado para feridas crônicas estabilizadas, como úlceras venosas em cicatrização, onde a carga bacteriana já está controlada e o ambiente domiciliar não permite técnica estéril completa.

Com que frequência o curativo de enfermagem deve ser trocado?

A frequência depende da cobertura utilizada e das características da ferida. Gaze simples: a cada 24 horas ou quando saturada. Hidrocoloide: a cada 3 a 7 dias. Alginato: a cada 1 a 3 dias conforme exsudato. Espuma: a cada 2 a 4 dias. Coberturas com prata: conforme fabricante, geralmente 2 a 7 dias. Independente do prazo, sempre troque se o curativo estiver solto, saturado, com odor ou com sinais de infecção.

O que fazer se a gaze aderir à ferida na hora de trocar o curativo?

Nunca puxe a gaze aderida à força — isso traumatiza o tecido de granulação e retarda a cicatrização. O procedimento correto é umedecer a gaze com SF 0,9% ou soro fisiológico morno, aguardar de 1 a 2 minutos para que a aderência se dissolva e, então, retirar com pinça e movimentos delicados. Para evitar nova aderência, use coberturas não aderentes (non-adherent dressings) ou aplique uma camada fina de hidrogel entre a ferida e a gaze.

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Conclusão

O curativo de enfermagem é muito mais do que um procedimento técnico rotineiro — é um ato de cuidado que exige avaliação clínica, conhecimento sobre coberturas, domínio da técnica asséptica e documentação precisa. A escolha correta da cobertura para cada tipo e fase da ferida faz toda a diferença na velocidade de cicatrização e na prevenção de complicações como infecção e deiscência.

Vale lembrar que as coberturas modernas evoluíram enormemente — e a atualização constante sobre novos produtos e evidências faz parte do perfil profissional de excelência. Salve este guia como referência e compartilhe com sua equipe. Deixe nos comentários sua dúvida ou experiência clínica com curativos!

Referências Bibliográficas

1. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução COFEN nº 0567/2018. Normatiza a atuação da equipe de enfermagem no cuidado de feridas. Brasília: COFEN; 2018.

2. Sociedade Brasileira de Estomaterapia (SOBEST). Consenso Brasileiro de Úlceras por Pressão e Cuidados de Feridas. São Paulo: SOBEST; 2022.

3. Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo de Prevenção de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS). Brasília: MS/ANVISA; 2022.

4. Wounds International. International Best Practice Recommendations: Wound Management in Diabetic Foot Ulcers. London: Wounds International; 2021.

5. Dealey C, Wyndham S, Brindle CT. Wound Management and Dressings. 3ª ed. Oxford: Wiley-Blackwell; 2020.

6. Borges EL, Saar SRC, Lima VLAN, Gomes FSL, Magalhães MBB. Feridas: como tratar. 3ª ed. Belo Horizonte: COOPMED; 2016.

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