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Sondagem Vesical de Demora: Técnica Passo a Passo e Cuidados

Técnica estéril de cateterismo urinário

Sondagem Vesical de Demora: Técnica Passo a Passo e Cuidados

A sondagem vesical de demora (SVD) é um dos procedimentos invasivos mais realizados em ambiente hospitalar. Consiste na introdução de um cateter estéril através da uretra até a bexiga, permitindo a drenagem contínua da urina. Por ser uma intervenção que rompe as barreiras naturais de defesa do organismo, ela exige rigor técnica e vigilância constante da equipe de enfermagem para evitar a temida Infecção do Trato Urinário Relacionada à Assistência à Saúde (ITU-RAS).

Neste artigo, detalhamos o passo a passo técnico, os materiais necessários e os cuidados fundamentais para garantir a segurança do paciente e a eficácia do procedimento.

O que é a Sondagem Vesical de Demora (SVD)?

A sondagem vesical de demora, também chamada de cateterismo urinário de demora, diferencia-se da sondagem de alívio por utilizar um dispositivo (Sonda de Foley) que possui um balonete inflável em sua extremidade. Esse balonete permite que a sonda permaneça fixada no interior da bexiga por períodos prolongados, conectada a um sistema de drenagem fechado.

Indicações Principais

A SVD não deve ser utilizada por conveniência da equipe (como controle de incontinência em pacientes lúcidos), mas sim em situações clínicas específicas:

  • Retenção urinária aguda ou crônica.
  • Monitorização rigorosa do débito urinário em pacientes críticos.
  • Cirurgias urológicas ou ginecológicas extensas.
  • Necessidade de imobilização em pacientes com fraturas pélvicas.
  • Manejo de feridas em região sacral em pacientes incontinentes.

Riscos e Complicações do Cateterismo Urinário

Embora essencial, a sondagem vesical carrega riscos. O principal deles é a infecção. Estima-se que cada dia de permanência com a sonda aumente o risco de bacteriúria em até 5%.

Outros riscos incluem:

  • Trauma uretral: Causado por inserção forçada ou insuflação do balonete no canal uretral.
  • Formação de cálculos: Devido à estase urinária e incrustações na sonda.
  • Estenose de uretra: Cicatrizes causadas por traumas repetidos ou inflamação.

Materiais Necessários para a Técnica Estéril

A organização do material é o primeiro passo para o sucesso. Você precisará de:

  1. Sonda de Foley: Calibre adequado (geralmente 14 a 16 French para adultos).
  2. Coletor de Urina Sistema Fechado: Estéril.
  3. Kit de Sondagem: Contendo cúpula, pinça, gaze e campo fenestrado.
  4. Solução Antisséptica: Clorexidina degermante e aquosa.
  5. Gel Lubrificante Estéril: Geralmente lidocaína 2% (geléia).
  6. Seringa de 10ml ou 20ml: Com água destilada (nunca use soro fisiológico, pois o sal pode cristalizar e travar a válvula do balonete).
  7. Luvas Estéreis e de procedimento.
  8. Material para higiene íntima: Água e sabão.

Técnica Passo a Passo (Manual Assistencial)

A sondagem vesical é uma técnica estéril e deve ser realizada preferencialmente por dois profissionais (um executante e um auxiliar).

Preparação

  1. Explique o procedimento ao paciente para reduzir a ansiedade.
  2. Realize a higiene íntima com água e sabão (limpeza prévia).
  3. Abra o kit de sondagem e os materiais estéreis sobre uma mesa auxiliar usando técnica asséptica.
  4. Teste o balonete da sonda com a água destilada antes da inserção.

Inserção no Homem

  • Posicione o paciente em decúbito dorsal.
  • Com a mão não dominante (que se tornará “suja”), segure o pênis perpendicularmente ao corpo.
  • Realize a antissepsia do meato uretral para a base da glande.
  • Injete a lidocaína diretamente na uretra para lubrificar e anestesiar o canal.
  • Introduza a sonda até o “pavilhão” (até o fim) para garantir que o balonete está na bexiga antes de inflar.

Inserção na Mulher

  • Posicione a paciente em posição ginecológica.
  • Afaste os grandes e pequenos lábios com a mão não dominante.
  • Realize a antissepsia de cima para baixo (do clitóris em direção ao ânus).
  • Identifique o meato urinário (abaixo do clitóris e acima da vagina).
  • Introduza a sonda de 5 a 7,5 cm até que a urina flua, e então avance mais 2,5 cm.

Cuidados de Enfermagem com Sonda Vesical

O papel da enfermagem após a inserção é o que define a prevenção de infecções. O foco deve ser a manutenção da integridade do sistema.

1. Manutenção do Sistema Fechado

Nunca desconecte a sonda da bolsa coletora. A quebra dessa barreira é a principal causa de entrada de bactérias. Se houver necessidade de coleta de urina para exames, utilize o dispositivo de coleta próprio (“portal”) com seringa e agulha fina, após desinfecção com álcool 70%.

2. Posicionamento da Bolsa Coletora

A bolsa deve permanecer sempre abaixo do nível da bexiga do paciente, para evitar o refluxo de urina contaminada de volta para o corpo. No entanto, ela nunca deve encostar no chão.

3. Higiene do Meato Uretral

A limpeza do meato deve ser realizada durante o banho diário com água e sabão. Não há evidência científica que suporte o uso de antissépticos rotineiros após a inserção; a higiene convencional é suficiente e menos irritante.

4. Fixação Adequada

  • Mulheres: Fixar na face interna da coxa.
  • Homens: Fixar na região suprapúbica ou face interna da coxa (para evitar pressão no ângulo penoescrotal e prevenir fístulas).

Quando Retirar a Sonda?

A melhor forma de prevenir complicações é a retirada precoce. O enfermeiro deve avaliar diariamente a real necessidade da manutenção do cateter.

  • Critério de retirada: Paciente com estabilidade hemodinâmica, sem obstruções mecânicas e capaz de realizar micção espontânea.

FAQ: Perguntas Frequentes (Cateterismo Urinário)

A sondagem vesical dói?

O procedimento causa desconforto e uma sensação de pressão. O uso de gel de lidocaína 2% ajuda a anestesiar o canal e facilitar a passagem, minimizando a dor.

Posso usar Soro Fisiológico para inflar o balão?

Não é recomendado. O sódio presente no soro pode cristalizar com o tempo, impedindo o esvaziamento do balão no momento da retirada, o que exigiria intervenção urológica.

O que fazer se a urina parar de descer?

Primeiro, verifique se não há dobras ou “acotovelamentos” no tubo. Se o sistema estiver livre, pode haver obstrução por coágulos ou sedimentos. Comunique o enfermeiro para avaliação da necessidade de irrigação vesical.

Quanto tempo o paciente pode ficar com a sonda?

Depende do tipo de material. Sondas de látex siliconado geralmente são trocadas a cada 15 dias, enquanto as de 100% silicone podem permanecer por até 30 a 90 dias, dependendo do fabricante e do protocolo institucional.

É normal ter sangue na urina após a sondagem?

Uma leve hematúria (urina rosada) pode ocorrer logo após a inserção devido ao trauma mecânico na uretra, mas deve desaparecer em poucas horas. Sangramento persistente deve ser reportado ao médico.

Conclusão

A execução da sondagem vesical exige muito mais do que habilidade manual; requer consciência ética sobre a técnica asséptica e um olhar crítico nos cuidados pós-procedimento. Ao seguir os protocolos de cuidados de enfermagem com sonda vesical, o profissional garante que o dispositivo cumpra sua função terapêutica sem se tornar um foco de infecção para o paciente.

Ficou com alguma dúvida sobre a técnica de inserção? Deixe seu comentário abaixo e compartilhe sua experiência prática conosco!

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Referências Bibliográficas

  • BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Brasília, 2023.
  • CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução nº 0450/2013: Competências da equipe de Enfermagem em Sondagem Vesical.
  • POTTER, P. A.; PERRY, A. G. Fundamentos de Enfermagem. 9. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2017.
  • LO, E. et al. Strategies to Prevent Catheter-Associated Urinary Tract Infections in Acute Care Hospitals. Infection Control & Hospital Epidemiology, 2024.

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