Curativos de Enfermagem e Tratamento de Feridas: O Manual Completo
Glossário:
ToggleO tratamento de feridas é uma das áreas de maior protagonismo e autonomia da enfermagem. Atuar na cicatrização exige mais do que apenas “trocar uma gaze”; requer conhecimento profundo sobre fisiologia tecidual, bioquímica das coberturas e uma avaliação clínica criteriosa.
Neste guia definitivo, abordamos desde as fases da cicatrização até a escolha da cobertura ideal para cada tipo de exsudato e tecido.
1. Fisiologia da Cicatrização: Como o Tecido se Recupera
Para tratar uma ferida, o enfermeiro precisa identificar em qual fase o processo se encontra. A cicatrização não é linear, mas sim um conjunto de eventos sobrepostos:
- Fase Inflamatória (0 a 6 dias): Caracterizada por edema, calor, rubor e dor. Há liberação de mediadores químicos e recrutamento de leucócitos.
- Fase Proliferativa (3 a 24 dias): É aqui que ocorre a angiogênese e a formação do tecido de granulação (aquele vermelho vivo e saudável).
- Fase de Maturação ou Remodelamento (21 dias a meses): As fibras de colágeno se organizam para aumentar a resistência da cicatriz.
Para entender a base da assepsia necessária nestas fases, leia sobre a Técnica de Curativo Estéril.
2. Avaliação da Lesão: O que observar?
Antes de escolher o curativo, a ferida deve ser descrita com precisão. Uma avaliação incompleta gera uma conduta errada.
- Localização anatômica: Essencial para prever o tempo de cura (áreas de dobra demoram mais).
- Tipo de Tecido:
- Granulação: Vermelho vivo (desejável).
- Fibrina/Esfacelo: Amarelo ou esverdeado (precisa de limpeza/desbridamento).
- Necrose/Escara: Tecido preto e rígido (precisa de desbridamento).
- Exsudato: Observar quantidade (escasso, moderado, abundante) e aspecto (seroso, sanguinolento, purulento).
Confira o nosso Guia Completo de Tipos e Técnicas de Curativos para aprofundar a prática.
3. Guia de Coberturas: Qual usar e quando usar?
Atualmente, o mercado oferece coberturas “inteligentes” que interagem com o leito da ferida. Abaixo, detalhamos as principais:
3.1 Alginato de Cálcio
Derivado de algas marinhas, é ideal para feridas com muito exsudato. Ele transforma-se em gel ao entrar em contato com o sódio da ferida, auxiliando no desbridamento autolítico e na hemostasia.
3.2 Hidrogel
Composto por água e polímeros, sua função principal é doar umidade. É a escolha certa para feridas secas, com fibrina ou necrose, pois amolece o tecido morto.
3.3 Hidrocoloide
Cria um ambiente úmido e isolamento térmico. Indicado para feridas com exsudato leve a moderado e para prevenção de Lesão por Pressão (LPP).
3.4 Espumas de Poliuretano
Excelentes para manejo de exsudato moderado a alto, oferecendo proteção mecânica contra pressão e fricção.
Você conhece a Polilaminina? Entenda como essa tecnologia ajuda na regeneração tecidual.
4. Lesão por Pressão (LPP) e Escala de Braden
Um dos maiores desafios em pacientes acamados. A prevenção é a melhor estratégia. A enfermagem deve realizar a mudança de decúbito a cada 2 horas e manter a pele hidratada.
- Grau I: Pele íntegra com eritema que não branqueia.
- Grau II: Perda parcial da espessura da derme (bolha ou abrasão).
- Grau III: Perda total de tecido, gordura visível.
- Grau IV: Músculo, tendão ou osso expostos.
Veja cuidados específicos para evitar complicações em Pacientes Acamados.
5. Cuidados em Condições Específicas
Nem toda ferida é cirúrgica ou por pressão. Algumas são manifestações de doenças sistêmicas.
Dermatites e Micoses
Feridas causadas por fungos ou reações alérgicas exigem coberturas que mantenham a pele seca e protegida, muitas vezes associadas a antifúngicos.
Entenda a diferença no tratamento da Dermatite Atópica e da Impinge (Micose).
6. A Técnica de Limpeza: O que mudou?
A evidência atual aponta que a limpeza deve ser feita com Soro Fisiológico 0,9% morno (para não reduzir a atividade celular) e sob jato sob pressão (técnica de irrigação) para remover a carga bacteriana sem traumatizar o tecido saudável.
- Evite o uso indiscriminado de antissépticos como PVPI ou Clorexidina no leito da ferida, pois eles podem ser citotóxicos para as células novas.
7. Conclusão
O enfermeiro é o gestor do cuidado com as feridas. Dominar as coberturas e a fisiologia da pele eleva o patamar da assistência e acelera a alta do paciente. Registre sempre a evolução da ferida com medidas (comprimento x largura) e fotos, se o protocolo institucional permitir.
Referências Bibliográficas
- BLANES, Leila. Tratamento de feridas. In: BAPTISTA-SILVA, José Carlos. Cirurgia Vascular: Guia Ilustrado. São Paulo: 2020.
- CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM (COFEN). Resolução nº 567/2018. Regulamenta a atuação da equipe de enfermagem no cuidado aos pacientes com feridas.
- WOUND, OSTOMY AND CONTINENCE NURSES SOCIETY (WOCN). Guideline for Management of Wounds in Patients with Lower-Extremity Arterial Disease. 2024.
- POTTER, Patricia A.; PERRY, Anne Griffin. Fundamentos de Enfermagem. 10. ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2021.
- BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de Condutas para Úlceras Neurotróficas e Traumáticas. Brasília, 2023.
Juliana é enfermeira há mais de uma década, com experiência em terapia intensiva e educação de profissionais. Atua no treinamento de equipes, supervisão de estágios e desenvolvimento de protocolos de enfermagem.
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