Sondagem Vesical de Demora: Técnica Correta, Materiais e Cuidados Essenciais
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ToggleA sondagem vesical de demora — também chamada de cateterismo vesical de demora ou SVD — é um dos procedimentos mais frequentes em ambientes hospitalares, cirúrgicos e de cuidados intensivos. Consiste na introdução de uma sonda uretral até a bexiga com permanência contínua, conectada a um sistema coletor fechado. Sua correta execução é determinante para a segurança do paciente e para a prevenção de infecções do trato urinário associadas a cateter (ITUAC).
Saber como realizar sondagem vesical de demora feminina e masculina com técnica adequada é uma das competências mais exigidas na formação e no exercício profissional da enfermagem. Isso porque a anatomia uretral difere entre os sexos, exigindo abordagens técnicas específicas, materiais adaptados e atenção redobrada em cada etapa do procedimento.
Neste artigo completo, você encontrará tudo sobre a SVD: definição, indicações, materiais, técnica passo a passo diferenciada por sexo, cuidados de manutenção, complicações e respostas para as principais dúvidas clínicas. Conteúdo embasado nas diretrizes do Ministério da Saúde, COFEN e ANVISA.
O que é Sondagem Vesical de Demora?
A sondagem vesical de demora é um procedimento invasivo que consiste na introdução de um cateter uretral (sonda de Foley) pela uretra até a bexiga urinária, com o objetivo de drenar continuamente a urina por um período prolongado. Diferente do cateterismo de alívio — que é retirado logo após o esvaziamento vesical —, a SVD permanece fixada por horas ou dias, conectada a um sistema coletor fechado e estéril.
O cateter vesical mais utilizado é a sonda de Foley, dispositivo de borracha ou silicone com duas ou três vias: uma para drenagem da urina, outra para insuflar o balão de retenção com água destilada (geralmente 10 mL) e, quando presente, uma terceira via para irrigação vesical. O balão inflado impede a saída acidental da sonda.
É importante ressaltar que a indicação de uma SVD deve ser criteriosa e embasada em evidências. Estudos indexados no PubMed demonstram que as ITUAC representam a infecção hospitalar mais prevalente no mundo, e que a maioria dos casos está diretamente relacionada ao uso inadequado ou prolongado do cateter vesical de demora.
Indicações e Contraindicações da Sondagem Vesical de Demora
A SVD possui indicações bem definidas pelos protocolos assistenciais. O uso indiscriminado deve ser evitado, pois aumenta o risco de infecção urinária associada ao cateter vesical.
| ✅ INDICAÇÕES | ❌ NÃO INDICADO |
| Retenção urinária aguda ou crônica sem resposta ao tratamento clínico | Incontinência urinária isolada sem outra indicação clínica |
| Monitoramento preciso do débito urinário em pacientes críticos (UTI, choque) | Obtenção de amostras de urina para cultura — usar cateterismo de alívio |
| Cirurgias urológicas, ginecológicas e abdominais de grande porte | Rotina de internação sem justificativa clínica documentada |
| Prevenção de contaminação de feridas sacrais ou perineais complexas | Comodidade da equipe ou do paciente sem indicação médica |
| Irrigação vesical contínua (pós-cirurgia prostática, hematúria grave) | Trauma uretral confirmado ou suspeito — avaliar com especialista |
| ATENÇÃO CLÍNICA — Programa de Prevenção de ITUAC De acordo com a ANVISA e o Ministério da Saúde, toda instituição deve adotar um Programa de Prevenção de ITUAC que inclui: • Revisão diária da necessidade do cateter e documentação da indicação ativa • Remoção precoce assim que a indicação clínica cessar • Registro no prontuário da data, horário e indicação da SVD • Treinamento periódico da equipe de enfermagem na técnica asséptica |
Materiais Necessários para a Sondagem Vesical de Demora
A organização prévia dos materiais é fundamental para garantir a assepsia e a fluidez do procedimento. Todo o kit deve ser disposto antes do início, em campo estéril, sem interrupções:
| Material | Especificação Técnica |
| Sonda de Foley | Nº 14–16 para adultos femininos | Nº 16–18 para adultos masculinos. Silicone para uso prolongado (>30 dias); látex para curta duração |
| Sistema coletor fechado | Bolsa coletora estéril com antirrefluxo; com câmara de medição de débito urinário para pacientes críticos |
| Seringa de 10 mL | Para insuflar o balão de retenção com água destilada estéril (10 mL, conforme fabricante) |
| Luvas estéreis | No número adequado ao profissional — uso obrigatório durante todo o procedimento |
| Antisséptico aquoso | PVPI aquoso 10% ou clorexidina aquosa 0,1% — nunca usar apresentações alcoólicas em mucosas |
| Pinça de Cheron | Para manipulação das gazes de antissepsia sem contaminar as luvas estéreis |
| Gel lubrificante estéril | Obrigatório no sexo masculino (15–18 cm); recomendado no feminino (5 cm) |
| Campo estéril | Campo fenestrado para expor a genitália + campo simples para apoio dos materiais |
| Esparadrapo ou curativo | Para fixação da sonda na coxa (feminino) ou abdome/hipogástrio (masculino) |
Como Realizar Sondagem Vesical de Demora Feminina e Masculina: Passo a Passo
A técnica da SVD é dividida em etapas gerais — comuns a ambos os sexos — e etapas específicas conforme a anatomia do paciente. Siga a sequência rigorosamente para garantir assepsia e segurança.
Etapas Gerais (comuns a ambos os sexos)
- Higienize as mãos com água e sabão e aplique solução alcoólica. Confirme a identidade do paciente com pelo menos dois identificadores (nome e data de nascimento).
- Explique o procedimento ao paciente, garantindo privacidade com biombos ou cortinas.
- Posicione o paciente: mulheres em decúbito dorsal com posição ginecológica (joelhos fletidos e pernas afastadas); homens em decúbito dorsal com pernas estendidas.
- Calce luvas de procedimento não estéreis e realize a higiene íntima prévia com água e sabão. Retire as luvas após a higiene.
- Abra o kit de cateterismo com técnica asséptica sem contaminar o campo estéril. Calce as luvas estéreis.
- Organize os materiais no campo estéril: gazes, seringa com 10 mL de água destilada, gel lubrificante, sonda de Foley e sistema coletor.
- Posicione o campo estéril fenestrado expondo apenas a região genital.
Sondagem Vesical de Demora Feminina
Na anatomia feminina, a uretra mede aproximadamente 3 a 5 cm. A identificação correta do meato uretral é o maior desafio técnico do procedimento — ele está localizado entre o clitóris (acima) e o introito vaginal (abaixo).
- Com a mão não dominante, afaste os grandes e pequenos lábios para expor o meato uretral. Mantenha essa mão em posição até o final do procedimento (contaminá-la reinicia a antissepsia).
- Com a pinça de Cheron na mão dominante, realize a antissepsia do meato para fora, em movimentos únicos de cima para baixo. Use uma gaze por passagem. Repita 3 vezes.
- Lubrifique a sonda de Foley nos primeiros 5 cm com gel estéril.
- Introduza a sonda delicadamente pelo meato uretral, avançando 5 a 7 cm ou até o refluxo de urina.
- Ao visualizar o fluxo de urina, avance mais 2 a 3 cm para garantir que o balão esteja completamente dentro da bexiga.
- Insufle o balão com 10 mL de água destilada estéril. Traccione levemente a sonda para confirmar a retenção.
- Conecte ao sistema coletor fechado. Fixe a sonda na face interna da coxa, com folga para evitar tração.
Sondagem Vesical de Demora Masculina
Na anatomia masculina, a uretra mede 18 a 22 cm e apresenta duas curvaturas naturais. A sondagem exige maior comprimento de introdução e manobra específica para transpô-las.
- Com a mão não dominante (estéril), segure o pênis com uma gaze e tracione em ângulo de 90° em relação ao abdome para retificar a curvatura penoescrotal.
- Com a outra mão e a pinça de Cheron, realize a antissepsia da glande em movimentos circulares do meato para a base. Repita 3 vezes com gazes separadas.
- Lubrifique a sonda generosamente com gel estéril nos primeiros 15 a 18 cm — a lubrificação abundante é essencial para a passagem pela uretra prostática.
- Introduza a sonda vagarosamente pelo meato uretral, avançando com movimentos suaves e contínuos.
- Ao atingir a curvatura puboprostática (aproximadamente 15 cm de inserção), incline o pênis em direção ao abdome (ângulo de 45°) para facilitar a passagem pela próstata.
- Continue avançando até o refluxo de urina. Em adultos, o comprimento total de inserção é de 18 a 22 cm.
- Com urina fluindo, avance mais 2 cm e insufle o balão com 10 mL de água destilada. Traccione suavemente para confirmar o posicionamento.
- Fixe a sonda na face lateral do abdome (hipogástrio), com folga adequada para evitar tração uretral.
Cuidados de Enfermagem com a Sonda Vesical de Demora
A manutenção adequada do cateter vesical é tão importante quanto a técnica de inserção. Os cuidados contínuos reduzem o risco de ITUAC e prolongam a vida útil do dispositivo com segurança:
- Higiene perineal diária: realizar limpeza da genitália com água e sabão ao menos uma vez ao dia e após evacuação. Não usar antisséptico rotineiramente na inserção da sonda.
- Sistema coletor fechado: nunca desconecte a sonda do tubo coletor sem indicação clínica — toda abertura do circuito representa risco de contaminação.
- Posicionamento da bolsa: manter sempre abaixo do nível da bexiga e nunca apoiada no chão. Verificar regularmente se há dobras (kinking) no tubo que obsruam o fluxo.
- Esvaziamento da bolsa: realizar quando atingir 2/3 da capacidade. Use recipiente individual por paciente; nunca toque a válvula na superfície do recipiente.
- Registro e avaliação: documentar em prontuário: volume, aspecto e coloração da urina, estado do meato uretral, data de inserção e necessidade de continuidade.
- Revisão diária da indicação: questionar e documentar ativamente a necessidade do cateter a cada plantão — o principal fator de risco para ITUAC é o uso por mais tempo que o necessário.
| DICA CLÍNICA — Bundle de Prevenção de ITUAC (ANVISA 2017) O pacote de medidas (bundle) recomendado pela ANVISA para prevenção de ITUAC inclui: 1. Inserção com técnica estéril rigorosa 2. Manutenção do sistema coletor fechado e fluxo urinário desobstruído 3. Higiene perineal diária sem antisséptico rotineiro na sonda 4. Fixação adequada para prevenir tração uretral 5. Remoção precoce assim que a indicação cessar A aplicação consistente desse bundle reduz a incidência de ITUAC em até 66%, segundo dados da ANVISA. |
Complicações e Erros Mais Comuns na Sondagem Vesical de Demora
O conhecimento das complicações e dos erros técnicos mais frequentes é essencial para a prática segura da enfermagem. A seguir, as principais ocorrências e suas condutas:
| Complicação | Causa / Fator de Risco | Conduta de Enfermagem |
| ITUAC | Quebra de assepsia, sistema aberto, higiene deficiente, uso prolongado | Remover cateter o mais cedo possível; comunicar médico; coletar urocultura |
| Falsa Via | Força excessiva na introdução, especialmente em homens com hiperplasia prostática | Interromper; não forçar; acionar o enfermeiro ou serviço de urologia imediatamente |
| Hematúria | Trauma uretral ou vesical; balão inflado antes do posicionamento correto | Avaliar volume; comunicar médico; verificar posicionamento do balão |
| Retenção pós-retirada | Hipotonia vesical por uso prolongado, sedação ou medicamentos | Monitorar micção nas primeiras 6h; avaliar globo vesical com ultrassom à beira do leito |
| Obstrução do cateter | Coágulos, sedimento urinário, dobras no tubo ou balão mal posicionado | Verificar posicionamento; irrigação vesical se prescrita; substituir se necessário |
| Extração acidental | Fixação inadequada, agitação do paciente, puxão involuntário | Avaliar lesão uretral; instalar novo cateter com nova técnica estéril; registrar ocorrência |
| ERROS MAIS COMUNS QUE COMPROMETEM A SEGURANÇA • Insuflar o balão antes de confirmar o refluxo de urina — causa lesão vesical grave • Usar antisséptico alcoólico na mucosa genital — risco de queimaduras químicas • Não registrar data, horário e indicação da SVD no prontuário • Posicionar a bolsa coletora acima do nível da bexiga — risco de refluxo e contaminação • Realizar o cateterismo sem campo estéril por ‘falta de tempo’ • No paciente masculino: não inclinar o pênis a 45° ao atingir a próstata — risco de falsa via • Reutilizar a mesma gaze durante a antissepsia |
Perguntas Frequentes sobre Sondagem Vesical de Demora
Como realizar sondagem vesical de demora feminina e masculina em pacientes de difícil acesso?
Em mulheres obesas ou com mobilidade limitada, solicite auxílio de outro profissional para manter a posição ginecológica e use iluminação adequada. Em idosas, o meato uretral pode ser de difícil visualização. Em homens com hiperplasia prostática benigna (HPB), use gel lubrificante em maior quantidade, faça movimentos lentos e, se houver resistência, acione o enfermeiro ou urologia antes de forçar a sonda.
Qual o número de sonda de Foley adequado para cada tipo de paciente?
A escolha do calibre é individualizada: adultos femininos usam o nº 14–16 Fr; adultos masculinos, nº 16–18 Fr. Em pacientes com hematúria ou urina espessa, pode ser necessário um calibre maior (nº 20–22 Fr). Em crianças, o cálculo é feito por idade e peso. Use sempre o menor calibre eficaz para o objetivo clínico.
Por quanto tempo a sondagem vesical de demora pode permanecer instalada?
A sonda de látex deve ser trocada a cada 15 a 30 dias; a de silicone, a cada 30 a 60 dias, conforme especificação do fabricante. O mais importante é a avaliação diária da indicação: assim que a razão clínica cessar, a sonda deve ser removida. O uso por mais tempo que o necessário é o principal fator de risco para ITUAC.
Técnico de enfermagem pode realizar cateterismo vesical de demora?
Sim. De acordo com a Resolução COFEN nº 450/2013 e as atribuições definidas na Lei nº 7.498/1986, o técnico de enfermagem está habilitado a realizar o cateterismo vesical — tanto de alívio quanto de demora — sob supervisão do enfermeiro, desde que tenha sido treinado e demonstre competência técnica.
O que fazer se não sair urina após a introdução da sonda vesical?
Não insufle o balão se não houver refluxo de urina. Verifique: (1) se a sonda está dobrada; (2) se a bexiga está vazia (avalie com ultrassom se disponível); (3) em mulheres, se a sonda foi introduzida na vagina — nesse caso, mantenha-a como guia e insira nova sonda no meato uretral correto. Se persistir, comunique o enfermeiro responsável.
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Conclusão
A sondagem vesical de demora é um procedimento que exige técnica rigorosa, conhecimento anatômico e compromisso com a segurança do paciente em cada etapa de sua execução e manutenção. Dominar as particularidades da SVD feminina e masculina, reconhecer as indicações corretas e aplicar os cuidados preventivos de ITUAC são competências essenciais para todo profissional de enfermagem.
Lembre-se: o melhor cateter é aquele retirado no menor tempo possível. A avaliação diária da necessidade do dispositivo deve fazer parte de toda rotina assistencial, sem exceção.
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Referências Bibliográficas
1. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução COFEN nº 450/2013. Normatiza o procedimento de Sondagem Vesical no âmbito do Sistema COFEN/CORENs. Brasília: COFEN; 2013.
2. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Medidas de Prevenção de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde. Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde. 2ª ed. Brasília: ANVISA; 2017.
3. Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo Integrante do Programa Nacional de Segurança do Paciente: Prevenção de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde. Brasília: MS; 2013.
4. Gould CV, Umscheid CA, Agarwal RK, et al. Guideline for Prevention of Catheter-Associated Urinary Tract Infections 2009. Infect Control Hosp Epidemiol. 2010;31(4):319–326.
5. Meddings J, Rogers MA, Krein SL, et al. Reducing unnecessary urinary catheter use and other strategies to prevent catheter-associated urinary tract infection. BMJ Qual Saf. 2014;23(4):277–289.
6. Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Manual de Prevenção e Controle de Infecção Urinária Associada a Cateter. Rio de Janeiro: ABEn; 2021.
Juliana é enfermeira há mais de uma década, com experiência em terapia intensiva e educação de profissionais. Atua no treinamento de equipes, supervisão de estágios e desenvolvimento de protocolos de enfermagem.
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