Punção Venosa: Guia Completo Passo a Passo para Técnicos e Enfermeiros
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ToggleA punção venosa é um dos procedimentos mais realizados em toda a prática da enfermagem — e também um dos que mais exige domínio técnico, segurança e atenção clínica. Seja para coleta de amostras de sangue, administração de medicamentos intravenosos ou instalação de acesso venoso, a qualidade da execução impacta diretamente no conforto do paciente e na eficácia do tratamento.
Saber como realizar punção venosa periférica passo a passo com segurança e precisão é uma competência essencial tanto para técnicos de enfermagem quanto para enfermeiros. Erros nessa etapa podem gerar complicações como hematomas, infiltrações, flebite e até infecções locais — situações que comprometem a segurança do paciente e geram retrabalho para a equipe.
Neste guia completo, você vai encontrar tudo que precisa saber sobre a punção venosa: conceito, materiais, técnica detalhada, cuidados, complicações e respostas para as dúvidas mais frequentes dos profissionais de saúde. Conteúdo atualizado, embasado em protocolos e pronto para ser aplicado na prática clínica.
O que é Punção Venosa?
A punção venosa é um procedimento invasivo que consiste na introdução de uma agulha ou cateter na luz de uma veia com o objetivo de obter acesso ao sistema vascular. Também chamada de venopunção ou flebotomia, ela é realizada para coleta de sangue (fins diagnósticos) ou para instalação de acesso venoso periférico (fins terapêuticos).
Na prática clínica, é um dos procedimentos mais prevalentes realizados por técnicos e enfermeiros. Segundo dados do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), a administração de terapia intravenosa e a punção de acessos venosos estão entre as atividades mais executadas em ambientes hospitalares e ambulatoriais no Brasil.
O acesso venoso pode ser periférico — quando realizado em veias superficiais dos membros superiores — ou central, quando envolve veias de maior calibre. Neste artigo, o foco é a punção venosa periférica, que é a mais comum e aquela executada pela equipe de enfermagem no cotidiano assistencial.
Indicações e Tipos de Punção Venosa
A punção venosa periférica possui indicações bem definidas pelos protocolos assistenciais. Compreender cada uma delas é fundamental para tomar a decisão clínica correta:
| Finalidade | Descrição Clínica |
| Coleta de Sangue | Exames laboratoriais, hemoculturas, tipagem sanguínea e outros fins diagnósticos |
| Terapia Intravenosa | Administração de medicamentos, antibióticos, quimioterápicos, eletrólitos e soluções de contraste |
| Hidratação Venosa | Reposição de fluidos em pacientes desidratados, pré e pós-operatórios |
| Hemotransfusão | Instalação de acesso venoso periférico para infusão de hemocomponentes |
| Nutrição Parenteral Periférica | Suporte nutricional parenteral de curta duração e osmolaridade compatível |
Vale destacar que a escolha do sítio de punção e do cateter intravenoso adequado deve ser individualizada, levando em consideração o tipo de terapia prescrita, o estado clínico do paciente, a qualidade do patrimônio venoso e o tempo previsto de uso do acesso.
Materiais Necessários para a Punção Venosa
Antes de iniciar o procedimento, reúna todos os materiais. A organização prévia reduz o risco de contaminação e interrupções durante a técnica:
- (jelco/abocath) no calibre adequado ao paciente e ao tipo de infusão
- Luvas de procedimento não estéreis
- Antisséptico (álcool a 70% ou clorexidina alcoólica 0,5%)
- Gazes estéreis ou algodão
- Curativo transparente (filme transparente) ou adesivo estéril
- Equipo de soro simples ou de bureta, conforme prescrição
- Seringa e agulha para flush com soro fisiológico 0,9%
- Descarpak ou coletor perfurocortante
- Etiqueta de identificação do acesso
- Bandeja ou cuba rim para apoio dos materiais
| ATENÇÃO CLÍNICA — Escolha do Calibre do Cateter A escolha do calibre (gauge) é determinante para o sucesso da punção e segurança do paciente: • G14–G16: Emergências, traumas e cirurgias de grande porte (maior fluxo) • G18–G20: Internações clínicas gerais, hemotransfusões e coleta de sangue • G22–G24: Pacientes pediátricos, idosos ou com veias frágeis • G26: Neonatos e pacientes com veias extremamente finas Lembre-se: quanto menor o número, maior o calibre do cateter. |
Como Realizar Punção Venosa Periférica Passo a Passo
A seguir, a técnica completa baseada nas diretrizes da Infusion Nurses Society (INS) e protocolos do Ministério da Saúde. Siga rigorosamente cada etapa para garantir segurança e eficácia:
- Higienize as mãos com água e sabão ou solução alcoólica antes de qualquer contato com o paciente ou material.
- Explique o procedimento ao paciente, confirme a identificação (nome completo e data de nascimento) e obtenha o consentimento verbal.
- Separe e organize todos os materiais na bandeja, verificando validade e integridade das embalagens.
- Coloque as luvas de procedimento antes de iniciar o contato com o paciente.
- Escolha o sítio de punção: prefira veias do antebraço (cefálica, basílica, mediana cubital). Evite fossas antecubitais em infusões contínuas.
- Aplique o garrote de 10 a 15 cm acima do sítio escolhido. Não mantenha por mais de 2 minutos.
- Solicite ao paciente que abra e feche a mão lentamente para favorecer o ingurgitamento venoso. Nunca palpe com os dedos sem luvas.
- Realize a antissepsia do local com álcool a 70% em movimentos circulares de dentro para fora. Aguarde secar naturalmente (30 segundos).
- Com a mão dominante, segure o cateter intravenoso com o bisel voltado para cima, em ângulo de 15° a 30° em relação à pele.
- Tracione levemente a pele com o polegar da mão não dominante para estabilizar a veia. Introduza o cateter com movimento firme e suave.
- Ao observar o refluxo de sangue na câmara do cateter (flash), diminua o ângulo e avance mais 0,5 cm para garantir que toda a cânula esteja na luz da veia.
- Retire o garrote antes de retirar o mandril metálico. Comprima gentilmente a veia acima da ponta do cateter com o dedo indicador.
- Retire o mandril com cuidado, descartando imediatamente no coletorde perfurocortante. Nunca reintroduza o mandril.
- Conecte o equipo de soro ou realize o flush com 3 a 5 mL de soro fisiológico 0,9% para confirmar a perviedade do acesso.
- Fixe o cateter com curativo transparente estéril. Identifique o acesso com data, horário, calibre do cateter e seu nome/COREN.
Cuidados de Enfermagem com o Acesso Venoso
A punção venosa bem-sucedida é apenas o início. A manutenção do acesso com segurança exige cuidados contínuos e avaliação clínica sistemática. De acordo com a Resolução COFEN nº 667/2021, o enfermeiro é responsável pela supervisão e avaliação contínua da terapia intravenosa.
- observe sinais de flebite (dor, calor, rubor, edema, cordão venoso palpável) usando a escala de flebite de Jackson.
- salinizar com 3 a 5 mL de SF 0,9% para manter a perviedade e prevenir obstrução.
- substitua sempre que estiver úmido, sujo ou solto, ou conforme protocolo institucional (geralmente a cada 72 horas para curativos de gaze e a cada 7 dias para curativos transparentes).
- troque a cada 72–96 horas em adultos, ou imediatamente diante de qualquer sinal de complicação, conforme recomendação do CDC (Centers for Disease Control and Prevention).
- Anotar com data e hora da punção, calibre do cateter, sítio de inserção, intercorrências e avaliação do acesso.
- comunicar imediatamente qualquer sensação de queimação, dor, inchaço ou desconforto no local do acesso.
| DICA CLÍNICA — Escala de Flebite de Jackson Use a Escala de Flebite de Jackson para avaliar e registrar o estado do acesso venoso: Grau 0 — Sem sinais clínicos Grau 1 — Eritema discreto, com ou sem dor local Grau 2 — Dor, eritema e edema Grau 3 — Dor, eritema, edema e cordão venoso palpável Grau 4 — Dor, eritema, edema, cordão venoso e material purulento A partir do Grau 2, remova o cateter e registre a ocorrência no prontuário. |
Complicações e Erros Mais Comuns na Punção Venosa
Conhecer as complicações possíveis é essencial para prevenção, identificação precoce e conduta adequada. A seguir, as principais:
| Complicação | Causa Principal | Conduta de Enfermagem |
| Hematoma | Punção com agulha atravessando a veia ou remoção prematura da compressão | Comprimir o local por 3–5 minutos; aplicar gelo se necessário |
| Infiltração | Cateter fora da veia ou veia perfurada, com extravasamento de líquido para o tecido subcutâneo | Remover o cateter imediatamente; avaliar extensão e temperatura da área |
| Flebite | Irritação mecânica, química ou infecciosa da parede venosa | Remover o cateter; aplicar compressa morna; notificar; trocar o sítio |
| Extravasamento | Passagem de solução vesicante para tecido perivenoso | Suspender infusão; remover cateter; seguir protocolo de extravasamento institucional |
| Oclusão do Cateter | Coágulo no interior do cateter por flush insuficiente ou interrupção de infusão | Realizar flush com pressão positiva; se persistir, substituir o acesso |
| Infecção de Sítio | Quebra de assepsia durante a inserção ou manutenção do cateter | Remover o cateter; colher cultura se indicado; notificar a CCIH; registrar |
| ERROS COMUNS QUE DEVEM SER EVITADOS • Realizar punção venosa sem garrote, dificultando a visualização e palpação das veias • Não aguardar a secagem completa do antisséptico antes de puncionar • Reintroduzir o mandril metálico após a inserção (risco de lesão vascular e embolismo) • Não identificar o acesso com data, horário e calibre • Manter o cateter por mais tempo que o recomendado sem avaliação documentada • Puncionar em membro com fístula arteriovenosa, linfedema ou pós-mastectomia |
Perguntas Frequentes sobre Punção Venosa
Como realizar punção venosa periférica passo a passo em pacientes com veias difíceis?
Em pacientes com patrimônio venoso comprometido, algumas estratégias aumentam a chance de sucesso: hidrate o paciente antes (se possível), aplique compressa morna por 5 minutos sobre o membro para vasodilatação, utilize garrote por mais tempo (com monitoramento), use transiluminador ou dispositivo de visualização venosa, e opte por cateteres de menor calibre (G22–G24). Caso a punção não seja possível em 2 tentativas, solicite suporte do enfermeiro ou acione o time de acesso vascular.
Qual a diferença entre punção venosa e punção arterial?
A punção venosa acessa o sistema venoso — vasos que retornam sangue ao coração. O sangue venoso é tipicamente mais escuro (desoxigenado) e o fluxo na câmara é lento. Já a punção arterial acessa artérias — vasos que partem do coração. O sangue arterial é vermelho vivo e pulsa. Em caso de punção arterial acidental, remova a agulha imediatamente e aplique compressão firme por no mínimo 5 minutos (ou mais tempo em pacientes anticoagulados).
Técnico de enfermagem pode realizar punção venosa?
Sim. De acordo com a Lei nº 7.498/1986 e o Decreto nº 94.406/1987, que regulamentam o exercício da enfermagem, o técnico de enfermagem está habilitado a realizar a punção venosa periférica, inclusive a instalação de acessos venosos para administração de soluções e medicamentos prescritos, sempre sob a supervisão do enfermeiro.
Com que frequência o cateter periférico deve ser trocado?
As diretrizes do CDC e as recomendações da INS indicam a substituição do cateter venoso periférico a cada 72 a 96 horas em adultos, ou imediatamente diante de qualquer sinal de complicação. Estudos mais recentes (MAGIC Trial, 2018) sugerem que a troca guiada por indicação clínica — em vez de troca rotineira — pode ser igualmente segura e menos traumática para o paciente, desde que a avaliação do sítio seja feita regularmente.
Quais veias são preferidas para a punção venosa periférica?
Em adultos, as veias de eleição são as do antebraço: veia cefálica, veia basílica e veia mediana do antebraço. Em segundo plano, podem ser utilizadas as veias do dorso da mão. A fossa antecubital deve ser evitada para acessos de uso prolongado, pois dificulta a mobilidade do paciente e aumenta o risco de oclusão. Veias das pernas são utilizadas apenas em último caso e com avaliação criteriosa, pelo risco de tromboflebite.
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Conclusão
A punção venosa é muito mais do que uma simples “picada”: é um procedimento que exige preparo técnico, raciocínio clínico e atenção contínua ao paciente. Dominar cada etapa — desde a escolha do acesso venoso e do cateter periférico correto até a manutenção e identificação de complicações — faz toda a diferença na segurança e na qualidade da assistência prestada.
Vale lembrar que a punção venosa segura começa muito antes do contato com a pele do paciente: passa pela higiene das mãos, organização dos materiais, comunicação clara com o paciente e registro preciso no prontuário. Cada detalhe importa.
Continue aprimorando seus conhecimentos técnicos. Compartilhe este guia com sua equipe e deixe sua dúvida ou experiência nos comentários — a troca entre profissionais é fundamental para elevar o padrão da enfermagem brasileira.
Referências Bibliográficas
1. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN). Resolução COFEN nº 667/2021. Regulamenta a atuação da equipe de enfermagem em terapia infusional. Brasília: COFEN; 2021. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resolucao-cofen-no-667-2021
2. Infusion Nurses Society (INS). Infusion Therapy Standards of Practice. 8ª ed. Journal of Infusion Nursing. 2021;44(Suppl 1):S1–S224.
3. Ministério da Saúde (Brasil). Protocolo para Prática de Higiene das Mãos em Serviços de Saúde. Brasília: ANVISA/MS; 2022.
4. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Guidelines for the Prevention of Intravascular Catheter-Related Infections. Atlanta: CDC; 2011. Atualizado em 2017.
5. Rickard CM, Webster J, Wallis MC, et al. Routine versus clinically indicated replacement of peripheral intravenous catheters: a randomised controlled equivalence trial. The Lancet. 2012;380(9847):1066–1074.
6. Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Diretrizes para a Prevenção de Infecções Relacionadas ao Cateter Venoso Periférico. Rio de Janeiro: ABEn; 2020.
Juliana é enfermeira há mais de uma década, com experiência em terapia intensiva e educação de profissionais. Atua no treinamento de equipes, supervisão de estágios e desenvolvimento de protocolos de enfermagem.
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